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A Roda da Fortuna e Carmina Burana

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A RODA DA FORTUNA E CARMINA BURANA

O nome “Carmina Burana”, vem do latim e quer dizer “Canções de Benediktbeuern”. Em 1847, nesta cidade alemã, o estudioso de dialetos Johann Andreas Schmeller encontrou e publicou este manuscrito composto por 254 poemas e textos dos séculos XI, XII e XIII. Foi o próprio Schmeller quem deu o nome de “Carmina Burana”.

Roda da Fortuna de Françoise Chosson (1736).

Os Carmina Burana de Carl Orff fazem críticas mordazes às autoridades seculares e eclesiásticas, à hipocrisia e ao poder econômico da época. Compõem-se de melodias simples, de apelo popular bem ao gosto do pensamento alemão daqueles dias de Ascensão do III Reich.

Estes textos que compõem o manuscrito “Carmina Burana” tratavam-se de poesias de caráter profano escritas por diferentes poetas, com culturas e ideologias diversas e, por isso, os seus estilos são bastante diversificados. Encontramos textos picantes, satíricos, irreverentes, e podem falar sobre diversos temas da vida, como amor, sexo, bebidas, prazeres, críticas ao clero, entre outros. Essas peças eram escritas em latim medieval, alternados com trechos em francês provençal, médio–alto-alemão e até macarrônicas, numa mistura de latim vernáculo com alemão ou francês.

Em 1936, o compositor alemão Carl Orff pegou cerca de 20 dos 254 poemas de Carmina Burana e os musicou de forma totalmente nova, embora imitasse algumas características musicais típicas do período medieval, como o canto gregoriano e os intervalos de quinta justa.

A primeira parte da peça chama-se “Fortuna Imperatrix Mundi” (Sorte, Imperatriz do Mundo) e faz menção à deusa romana Fortuna, deidade associada à sorte e ao destino. Se tomarmos a abertura da cantata, podemos ler:

O Fortuna
Ó Sorte
Velut Luna
És como a Lua
Statu variabilis
Mutável

Semper crescis
Sempre aumentas
Aut decrescis
Ou diminuis
Vita detestabilis
Vida odiosa
Nunc obdurat
Ora oprime
Et tunc curat
E ora cura
Ludo mentis aciem
Brinca com a mente

Egestatem
A miséria
Potestatem
O poder
Dissolvit ut glaciem
Dissolvem como o gelo

Sors immanis
Sorte imensa
Et inanis
E vazia
Rota tu volubilis
Girando a roda
Status malus
És má
Vana salus
Vã é a felicidade
Semper dissolubilis
Sempre dissolúvel

Obumbrata
Nebulosa
Et velata
E velada
Michi quoque niteris
Também me contagia
Nunc per ludum
Agora por brincadeira
Dorsum nudum
O dorso nu
Fero tui sceleris
Entrego à tua perversidade

Sors salutis
A sorte na saúde
Et virtutis
E virtude
Michi nunc contraria
Agora me é contrária
Est affectus

Et defectus
E tira
Semper in angaria
Sempre escravizando
Hac in hora
Agora

Sine mora
Sem demora
Corde pulsum tangite
Toca a corda vibrante
Quod per sortem
Porque a sorte
Sternit fortem
Abate o forte
Mecum omnes plangite!
Chorem todos comigo!

Roda da Fortuna de Jean Dodal (1701-1715).

Fortuna tem um papel importante no imaginário medieval-renascentista europeu. Ocupou lugar até de santa entre alguns clérigos, deixando aos poucos a condição de “deusa vendada que gira a roda da vida” para a “santa da providência”, muitas vezes confundindo-se com outras deusas como Abundantia, Isis, Ops, Tyche e/ou Occasio.

A Fortuna no Renascimento

A partir do fim do século XV, a iconografia da Fortuna apresenta uma extraordinária quantidade de variantes com as quais gravuristas e pintores buscavam destacar os mais diversos comportamentos da deusa. O estudioso Giordano Berti apresenta a seguinte tipologia:

* Fortuna com esfera: deriva da deusa Tique; uma jovem nua em pé sobre uma esfera e segurando uma vela de barco nas mãos.

* Fortuna marinha: deriva da iconografia de Ísis pelagĭcă e da Vênus marinha; a sua imagem é a de uma jovem nua que se move sobre as águas empunhando uma vela ou um timão; às vezes, sob os pés, há um golfinho ou uma concha.

Alegoria da Fortuna (1806).

* Fortuna com tufo de cabelos: deriva do Kairos grego e da Occasio latina, a divindade do momento oportuno; é uma jovem com asas nos pés que corre velozmente, tendo na parte frontal do crânio uma longa mecha de cabelos.

* Fortuna com cornucópia: reúne a deusa romana Ops e o corno da cabra Amalteia; sua imagem é a de uma jovem, geralmente vendada, que distribui riquezas, deixando-as cair de dentro de um grande corno.

Fortuna e tarô

Nos baralhos de tarô é citada no arcano X; nas primeira cartas, é possivel verificar sua presença, e não apenas a engenhoca que a representa. A imagem original é só uma: 04 ou 03 figuras ascendendo ou declinando na roda, um misto de humanos e asnos, Midas com orelhas asininas no topo, Fortuna no centro, como no Visconti Sforza. O que é importante ressaltar é a ideia de instabilidade, incerteza e inconstância da engenhoca: uma grande roda apoiada sobre um cavalete, este último boiando sobre águas caudalosas. Sim, na linha Marselha a roda boia na superfície do mar. Essa tentativa de nos transmitir a ideia de “flutuação ou impermanência” se dá pela junção roda + maré. A própria deusa Fortuna é associada, originalmente, às fases da lua.

Fortuna como Luna (lua). Emblema inglês de Henry Taunton (1635).

No contexto da peça Carmina Burana, é de revelar o quanto tudo é passageiro ou transitório. Fortuna vem representar a tolice humana em se conquistar sucesso e fama, e acabar “com as mãos abanando”. Ao se deparar com Fortuna, lembre-se que nada é garantido, você ganha hoje, amanhã lhe será cobrado.

Fonte: https://radios.ebc.com.br/…/conheca-o-significado-de-carmin….

Giancarlo Kind Schmid
Giancarlo Kind Schmid
Vivendo em meio aos livros desde criança na biblioteca de meu pai, despertei interesse logo cedo por Literatura e História. Aos onze anos, comecei a me identificar com História Antiga, mais precisamente Egiptologia e afins. O primeiro contato com o mundo esotérico surgiu das pesquisas feitas com Piramidologia e estudos sobre energia cósmica.

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